A Bela Flor.

Viviam felizes na casinha com cerca branca e ladrilhos azul-céu. Faziam compras juntos no mercado da esquina, trabalhavam na mesma quadra e pareciam o casal mais feliz da redondeza.

Mas ambos acostumaram-se com o amor que tinham... Dormiam e acordavam sempre com o outro ao lado, de forma que não sentiam mais a necessidade de sair, de correr, experimentar coisas novas... Não sentiam mais vontade de namorar como antigamente, de mãos dadas, ou de trocar beijos e carinhos no cinema... Nem se quer iam mais ao cinema.

De tudo o que um dia aquele relacionamento foi, paixão, desejo, luxúria, restou uma prática mecânica de sexo ao anoitecer, uns carinhos trocados ao amanhecer, e nos encontros durante a tarde doces beijos, uma conversa de leve, ou as vezes em meio a tanta correria um simples ‘como vai você’?

Nos dois primeiros anos foi assim. Nos anos seguintes os carinhos foram sendo reduzidos à seções de carícias e o sexo mecânico nas noites de quinta feira, um dia neutro (sem futebol e sem boas sessões de filme na televisão) para ambos.

De repente a situação estava se tornando sufocante, ao ponto do mecanicismo sexual se tornar uma obrigação dolorosa. 

Ambos, sem pedir explicações e sem fazer drama, escolheram trilhar os caminhos separados.

- Vai ser melhor assim. Você vai ver, vamos ser felizes e continuar amigos.

Sim. Amigos... E sexo entre amigos não é legal. Morar juntos nem sempre... E assim foi. Cada qual para seu lado, sem medo, sem remorsos ou ressentimentos. Apenas a vontade de sentir a liberdade de outrora.

E a liberdade nem sempre é uma boa companheira. E isso ficou claro quando ele decidiu sair. Foi à um bar. Não conhecia o local, não conhecia ninguém, e nem mesmo sabia qual era a bebida que conseguiria beber. Optou por uma marguerita e lembrou-se que era a bebida preferida do casal nos primeiros anos de casados... Mas hoje não era mais.

E naquele momento bateu a saudade, a vontade de deitar junto, de fazer amor!

Voltou para casa, e não havia mais ninguém, não havia mais o sofá azul, nem o abajur lilás... Não havia vida, não havia nada.

Só restava ao canto esquerdo da sala um vaso com uma flor, seca e sem vida, abandonada aos cuidados de Deus. Assim como ele... Que aos poucos se sentia murchar... E o seu único medo era acabar como aquela flor, num canto... sozinho... sem companhia e sem amor.

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